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"Futebol? Futebol não se aprende na escola; é por isso que o Brazuca é bom de bola"

 

01/08/2018       Por @EuMatheusGomez       

 

"No país do futebol, o sol nasce para todos mas só brilha para poucos. E brilhou pela janela do barraco da favela onde morava esse garoto chamado Brazuca".

A composição homônima, cantada por Gabriel, O Pensador, apresenta logo nos primeiros versos uma triste realidade: A desigualdade social existente no Brasil.

 

A música retrata a vida de um menino pobre, nascido em favela, que não recebeu as devidas oportunidades para estabelecer-se como cidadão. Entretanto, através do futebol, ele consegue alcançar a fama e o reconhecimento social, tão distantes na época de sua miserável infância nos morros.

 

O menino atende pelo apelido de Brazuca, não escolhido por acaso. Ele representa os milhões de jovens brasileiros nascidos em regiões carentes, que veem no futebol, talvez, a única esperança de "vencer na vida". Tal ideia está presente no imaginário de toda criança que cresce assistindo aos jogos de futebol pela TV e sonha em ganhar milhões atuando em grandes times europeus.

 

Há exemplos de "brazucas" reais. Pelé, Romário, Ronaldo Fenômeno, Adriano. O real problema é que tratam-se de exceções. Eles sãos alguns entre milhões. Tais exemplos podem ser cruelmente usados por pessoas que julgam como sendo fácil se tornar um grande jogador, milionário e reconhecido mundialmente, deixando de lado uma gama imensa de fatores que contribuem para todo esse processo e, dessa forma, acaba despejando nas costas de cada criança ou jovem a responsabilidade por seu próprio futuro. Lembre-se, “no país do futebol, o sol nasce para todos, mas só brilha para poucos...”.

 

Na canção, Brazuca tem como contraponto a figura de Zé Batalha, seu irmão mais velho. Pela sua origem humilde, precisou trabalhar desde pequeno para sustentar sua mãe e Brazuca. Para sua tristeza, não nasceu com o “dom da bola” e nem teve muito tempo para arriscar. Não teve infância. Não teve educação. Não teve chances.

O papel em destaque do futebol na história não é o de “ópio do povo”, mas sim de válvula de escape para aqueles que não têm grandes oportunidades. O futebol é uma loteria mais acessível e acreditada pelo povão.

 

O decorrer da música mescla a ascensão de Brazuca à craque do futebol mundial, e o eterno esquecimento de Zé Batalha. Enquanto o primeiro atua de maneira ímpar e se torna o exemplo, o segundo representa a maioria, a massa, o resto, e é o que ninguém deseja ser.

 

A narrativa termina por decretar um destino bem diferente para os irmãos. Enquanto Brazuca torna-se o “camisa 10” da seleção brasileira, vai jogar em um clube europeu, e recebe o maior salário dentre todos os demais jogadores de futebol mundial, seu irmão Zé Batalha trabalha diariamente para conseguir sobreviver de uma forma miserável. Além de ser constantemente desrespeitado pelo autoritarismo preconceituoso da polícia.

 

No fim das contas, no exato momento em que Brazuca cobra o pênalti que decreta a seleção brasileira como campeã de uma Copa do Mundo, seu irmão Zé Batalha está prestes a ser morto pela polícia – “Bola no lugar, Brazuca vai bater. Dedo no gatilho, Zé Batalha vai morrer". Então, ocorre o desfecho da história. Zé Batalha, confundido com um bandido, é morto – "Juiz apitou…Gol... tudo como tinha que ser: tá lá mais um gol e o Brasil é campeão; tá lá mais um corpo estendido no chão”.

 

O enredo deixa claro a distância entre exceção e regra, sonho e realidade. Dois irmãos que tiveram a mesma criação, em condições idênticas, seguiram caminhos extremamente opostos única e exclusivamente por causa de uma bola. O mesmo futebol que foi capaz de decretar o sucesso de um, decretou o "fracasso" do outro. O que mais chama a atenção é a condição que assume o futebol, não como prática esportiva, mas como salvador da pátria.

Coube ao futebol inteirar-se das expectativas da sociedade quando seus direitos, como a saúde, a educação e a cidadania, foram subtraídos. Estudar para quê? – “Futebol não se aprende na escola… é por isso que o Brazuca é bom de bola”. Hoje, para as classes mais desamparadas, talvez faça mais sentido “crescer na vida” por conta própria, já que há possibilidade de contar com a assistência do Estado, que é (ou, no mínimo, deveria ser) uma obrigação. Daí a valorização do sucesso através do futebol – “Brazuca é bom de bola, Brazuca deita e rola. Zé Batalha só trabalha, Zé Batalha só se esfola.”.

 

Vale ressaltar que no dia do enterro de Zé Batalha não havia ninguém nem para carregar o corpo ou orar pelo morto, pois "estavam todos com a bandeira na mão, esperando a seleção no aeroporto”.